As metas de universalização do saneamento se cumprem com tubulação assentada, vala aberta e ligação executada — e quase nada disso é feito pela mão de obra própria da concessionária. As obras de expansão de redes de água e esgoto são, em sua imensa maioria, executadas por empreiteiras e equipes terceirizadas, e é exatamente nesse elo que se concentra a parcela mais delicada do risco do setor: o trabalhista e o de segurança. Entender por que a mão de obra terceirizada concentra esse risco é o ponto de partida para qualquer operador que pretenda expandir sem transformar cada nova frente de obra em uma fonte de passivo e de acidente.
Este artigo examina por que as obras de expansão de redes carregam um perfil de risco elevado e por que a terceirização — necessária e inevitável — exige um cuidado proporcional com a conformidade de quem está em campo.
A expansão de redes é uma operação de canteiro disperso. Diferente de uma obra concentrada em um único terreno, o assentamento de tubulações se espalha por ruas, bairros e municípios, avançando metro a metro. Essa característica torna a terceirização não apenas conveniente, mas estrutural: contrata-se capacidade de execução em escala, distribuída no território, por prazos definidos pelo cronograma de cada trecho.
O resultado é uma mão de obra com algumas marcas próprias:
Essas características não são apenas operacionais — elas definem onde o risco se acumula. Em obras de expansão de redes de água e esgoto, dois tipos de risco se sobrepõem na figura do trabalhador terceirizado: o de segurança e o trabalhista.
O trabalho de assentamento de redes está entre os mais perigosos do setor. A escavação de valas profundas traz risco de soterramento. A entrada em poços de visita, redes coletoras e estações elevatórias configura espaço confinado, com risco de atmosfera perigosa. Há ainda trabalho em via pública, com exposição ao tráfego, e manuseio de equipamentos pesados. Cada uma dessas atividades exige treinamento específico — e exige que esse treinamento esteja válido e comprovado no momento em que a pessoa entra na frente. Quando a rotatividade é alta e o controle é manual, a chance de alguém entrar em uma vala ou em um espaço confinado sem a capacitação devida cresce — e o custo de um acidente nesse contexto é altíssimo, humano antes de ser financeiro.
O segundo risco é jurídico e recai sobre a concessionária mesmo quando a falha é da empreiteira. Quando o prestador não cumpre obrigações com seus empregados — verbas, recolhimentos, adicionais de insalubridade, equipamentos de proteção —, o trabalhador tende a acionar também a tomadora do serviço. Em obras de expansão, com grande volume de mão de obra e atividades insalubres, a exposição é significativa. E a defesa da concessionária depende de evidência: comprovar quem esteve em campo, em quais datas, com qual documentação válida. Sem rastreabilidade no nível da pessoa, essa evidência é frágil.
O que torna a expansão de redes especialmente arriscada é a soma desses fatores. Alta rotatividade significa que o universo de pessoas a controlar muda constantemente. Dispersão significa que ninguém tem, manualmente, um quadro completo de quem está em campo. Subcontratação significa que parte das pessoas em campo nem aparece no contrato principal. E pressão de prazo significa que a tentação de liberar a frente sem a checagem completa é permanente. Cada fator isolado é gerenciável; somados, eles explicam por que tantas obras convivem com pontos cegos de conformidade.
O método tradicional de controlar a conformidade dos terceiros — planilhas atualizadas periodicamente, conferência por amostragem, gestão por contrato — foi pensado para operações estáveis, não para um canteiro disperso e em movimento. Em obras de expansão, esse método entrega à concessionária um retrato que já está defasado: a planilha diz que o trecho está conforme, mas a equipe rodou, um treinamento venceu, um subcontratado entrou sem registro. A defasagem entre o que o controle mostra e o que está acontecendo na vala é exatamente o espaço onde o acidente e o passivo se instalam.
Nas obras de expansão de redes de água e esgoto, a conformidade da mão de obra terceirizada não é um item administrativo separado da execução — ela é parte da execução. Garantir que cada pessoa em cada frente tem treinamento válido e documentação em ordem é tão parte da obra quanto assentar a tubulação. E garantir isso em um canteiro disperso, com rotatividade alta e prazos apertados, exige enxergar a cadeia de forma contínua e atualizada, no nível do colaborador, e não apenas do contrato.
É essa necessidade que tem levado operadores de saneamento a substituir o controle manual por uma gestão de terceiros baseada em dados, capaz de acompanhar quem está em campo a cada momento e com qual conformidade. Infraestruturas de gestão de serviços e terceiros, como a wehandle, atuam justamente nesse ponto — dar visibilidade e controle sobre a força de trabalho terceirizada que executa a expansão. Para aprofundar, vale entender como estruturar a gestão de serviços e terceiros em obras de saneamento.