As grandes obras de saneamento têm visibilidade: aparecem em inaugurações, em relatórios de metas, em fotos de máquinas e canteiros. Já a manutenção de redes e estações de tratamento (ETA/ETE) acontece longe dos holofotes — e é executada, em boa parte, por uma cadeia de terceiros que a própria concessionária tem dificuldade de enxergar por inteiro. É essa operação cotidiana, contínua e pouco visível que mantém a água tratada e o esgoto coletado funcionando todos os dias. E é justamente nela que se esconde um dos riscos documentais mais subestimados do setor: o de uma cadeia de prestadores que ninguém controla com a mesma atenção dedicada às obras novas.
Este artigo dimensiona a operação de manutenção terceirizada no saneamento e por que a baixa visibilidade documental que a acompanha é um risco silencioso para as concessionárias.
Enquanto as obras de expansão entregam capacidade nova, a manutenção garante que a capacidade existente continue operando. No saneamento, isso abrange um conjunto extenso de atividades recorrentes: reparo de vazamentos e rompimentos em redes de distribuição, desobstrução de coletores de esgoto, manutenção eletromecânica de estações elevatórias, manutenção de equipamentos em estações de tratamento de água (ETA) e de esgoto (ETE), serviços de instrumentação e automação, limpeza de reservatórios.
Boa parte dessas atividades é terceirizada — e por boas razões. Exigem especialização técnica que nem sempre faz sentido manter no quadro próprio, ocorrem de forma distribuída pela área de concessão e variam em volume ao longo do tempo. O resultado é uma cadeia de prestadores de manutenção que entra e sai das instalações continuamente, executando serviços de criticidade variável, muitos deles de alto risco.
A manutenção terceirizada carrega uma característica que a torna especialmente difícil de controlar: ela é fragmentada, recorrente e dispersa. Diferente de uma obra, que tem início, meio e fim bem definidos e um contrato robusto por trás, a manutenção acontece em pequenos eventos espalhados no tempo e no território. Essa natureza cria pontos cegos previsíveis.
Há um paradoxo aqui que merece atenção. Justamente por ser rotineira, a manutenção tende a receber menos rigor de controle do que as grandes obras — quando, em termos de risco por evento, ela pode ser igualmente perigosa. Um colaborador que entra em um espaço confinado para desobstruir uma rede enfrenta o mesmo risco de atmosfera perigosa que enfrentaria em uma obra nova, mas com muito menos cerimônia documental ao redor. A familiaridade com a tarefa baixa a guarda, e a baixa guarda é onde o acidente encontra espaço.
A baixa visibilidade documental da cadeia de manutenção se traduz em riscos concretos para a concessionária, que se acumulam silenciosamente porque não estão sob os holofotes.
Manutenção em ETA/ETE, redes e elevatórias envolve espaço confinado, risco elétrico, manuseio de produtos químicos de tratamento e trabalho em altura. Quando um prestador é liberado rapidamente, sem confirmação de que seus colaboradores têm treinamento válido para a atividade, a operação assume um risco que não enxerga.
A manutenção sustenta os indicadores de qualidade e continuidade que a agência reguladora fiscaliza. Uma falha de manutenção mal executada por terceiro pode afetar a qualidade da água ou a continuidade do serviço — e, com isso, virar apontamento regulatório contra a concessão. A conformidade de quem mantém o sistema é parte da conformidade do serviço prestado.
Como em qualquer terceirização, o passivo trabalhista do prestador de manutenção pode alcançar a concessionária contratante. E como a manutenção é fragmentada e pouco rastreada, a evidência de quem esteve em campo, quando e sob qual conformidade — base de qualquer defesa — costuma estar dispersa ou ausente.
O ponto central é que a manutenção de redes e estações não é menos importante que as obras de expansão — ela apenas é menos visível. E o que não se vê não se controla. Tratar a cadeia de manutenção com o mesmo rigor de conformidade aplicado às grandes obras significa enxergar, de forma contínua, quem está sendo acionado, para qual serviço e com qual documentação válida — inclusive nos serviços rápidos e rotineiros que hoje passam sem checagem.
Isso é difícil de fazer com planilhas e conferência por amostragem, porque a manutenção acontece em um fluxo constante de pequenos eventos dispersos. Por isso, operadores do setor vêm adotando infraestruturas de gestão de serviços e terceiros, como a wehandle, capazes de manter a conformidade da cadeia atualizada mesmo em uma operação fragmentada — tornando visível a cadeia de manutenção que hoje opera no escuro. Para aprofundar, vale entender como estruturar a gestão de serviços e terceiros na operação de saneamento.