O setor de saneamento entrou em um ciclo de expansão sem precedentes. Sob o Novo Marco do Saneamento, a agenda de universalização pressiona concessionárias e empresas públicas a executar muita obra — ampliação de redes, estações de tratamento, ligações domiciliares e manutenção de ativos que já operam no limite.
Mais obra significa mais gente em campo. E, no saneamento, "gente em campo" é, na prática, força de trabalho terceirizada: empreiteiras de obras lineares, equipes de manutenção de rede, prestadores de serviços de emergência, leituristas, operadores logísticos. A operação de uma concessionária é, hoje, uma extended enterprise — uma rede de terceiros que executa o serviço essencial em nome da empresa, espalhada por dezenas de municípios.
O que mudou não foi só o volume. Mudou quem está olhando. A criação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) como instância de normas de referência, somada às agências reguladoras estaduais — ARSESP em São Paulo, ARSAE em Minas Gerais, AGERGS no Rio Grande do Sul, entre outras —, profissionalizou a fiscalização dos contratos de concessão. A conformidade deixou de ser um tema interno de compliance e virou condição de contrato.
A lógica é simples e desconfortável: em uma concessão, a empresa responde pelo serviço essencial. Quando esse serviço é executado por terceiros, a responsabilidade não se terceiriza junto. Três frentes de risco se acumulam.
Em obras de grande porte e contratos continuados de manutenção, a concessionária pode ser responsabilizada pelo passivo trabalhista de prestadores que não recolhem encargos, não pagam funcionários ou descumprem normas de segurança. Tomar serviço sem fiscalizar a idoneidade do prestador é assumir o risco. Em um setor com milhares de trabalhadores terceirizados em obras lineares, o passivo potencial é material.
A agência reguladora não pergunta se o prestador "estava regular". Ela pede a comprovação. Em auditoria de concessão, a documentação precisa ser comprovável, não presumida — ASO em dia, treinamentos de NR-35 e NR-33 válidos, ART de responsável técnico, regularidade fiscal e previdenciária do prestador, ordens de serviço assinadas. Uma equipe que entrou em vala ou espaço confinado sem o treinamento comprovado não é um problema de RH: é um achado de auditoria que pode afetar revisão tarifária e indicadores contratuais.
O agravante estrutural do saneamento é a geografia. Equipes de manutenção terceirizadas operam em múltiplas regiões, muitas vezes contratadas localmente, com documentação que vive em pastas físicas, e-mails e planilhas regionais. A pergunta básica — "todos os terceiros que estão em campo agora estão aptos?" — costuma não ter resposta imediata. E o que não se enxerga não se controla.
A maior parte das concessionárias ainda gerencia conformidade de terceiros com planilhas e consultorias documentais. O problema não é a ferramenta — é o tempo. Uma planilha registra o status do documento no dia em que alguém o conferiu. No dia seguinte, um ASO venceu, uma certidão caducou, um treinamento expirou — e ninguém sabe até a próxima conferência manual, que pode ser mensal ou trimestral.
Isso significa operar com dados atrasados. A empresa acha que está conforme porque a última planilha dizia que sim. Mas conformidade é um estado contínuo, não uma foto. Quando a auditoria da agência chega, ou quando um acidente acontece, a distância entre o que a planilha mostrava e a realidade do campo vira exposição direta.
O caminho contrário é tratar a conformidade como monitoramento contínuo: saber, em tempo real, quais terceiros estão aptos, quais documentos vencem nos próximos dias e quais equipes não podem ser mobilizadas. É a diferença entre trabalhar no passado e operar no presente, com prontidão real para auditoria.
No saneamento pós-Novo Marco, gestão de terceiros deixou de ser uma tarefa administrativa e virou um componente de risco regulatório, trabalhista e reputacional. Concessionárias de referência já entenderam isso e estão estruturando a fiscalização de prestadores como parte central da governança da concessão — não como um anexo dela.
O primeiro passo é diagnóstico: entender onde estão seus pontos cegos no campo distribuído antes que a agência reguladora os encontre por você.
Próximo passo: descubra em que nível de maturidade está a sua gestão de terceiros e como sua operação se compara ao setor — acesse a Pesquisa de Maturidade em Gestão de Terceiros 2026.